A síndrome do Capitão Planeta

Antes de qualquer coisa, quero parabenizar todo o pessoal do ICMBio que através do CPB (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros) promoveu uma reunião riquíssima em experiências e opiniões para humildemente discutir aspectos importantes para a priorização de áreas de atuação para a conservação de duas espécies ameaçadas de extinção na Mata Atlântica do Nordeste, o Guariba (Allouatta belzebuth) e o macaco-prego-galego (Sapajus falvius). Além de aprender muito sobre esses primatas, esses últimos dois dias me provocarm uma reflexão profunda sobre a biologia da conservação e suas tradições no Brasil.

Discutir um plano de ação para a conservação de primatas num dos piores cenários de conservação possíveis por si só já é uma ousadia. Pequenos pedaços de mata isolados e perturbados ainda abrigam (só Darwin sabe como!) populações de macacos. Nossa reunião estava povoada de biólogos e afins, e travamos dicussões intermináveis sobre as características das paisagens, ações para cada uma das 18 áreas levantadas com a presença de pelo menos uma das espécies. O tempo corria e eu escutava uma voz do além que reclamava:"Ei, vocês já combinaram tudo isso com o mundo real?"

Discutimos sobre tudo: coisas importantes e bem embasadas cientificamente, opiniões de especialistas... mas pouca ou nenhuma perspectiva do contexto socioeconômico da região. Para nós biólogos e afins o problema da conservação de dois macacos tinha a ver com que se o bicho se comportava assim ou assá, quantos metros adentrava na cana-de-açúcar, se competiam entre si ou não. São sintomas da "síndrome do Capitão Planeta", um super-herói que resolvia as broncas ambientais mais sérias num passe de mágica sem assanhar seu cabelo estilo anos 80 e com a ajuda do um grupo de intrépidos jovens ambientalistas.

Agimos como os ajudantes do Capitão Planeta. Nos confraternizamos em reuniões travando discussões elevadíssimas em termos biológicos e armamos um plano nijna que é claro que dará certo, mas somente se o Capitão Planeta aparecer. Reconheço, somos maus em desenhar cenários hipotéticos, trabalhar com perspectivas favoráveis e desfavoráveis, planejar ações alternativas e acabamos colocando todos os ovos numa única cesta, à espera do Capitão Planeta.

O Brasil não tem uma tradição própria na formação de biólogos da conservação. Há 13 anos da criação de um curso como o de Ciências Ambientais na UFPE, ainda não conseguimos formar mais que aspirantes a ajudantes de Capitão Planeta. Não há empreendedorimso na conservação biológica e sem isso não há ambição que resista a umas quantas rasteiras. Continuamos achando que o problema da conservação está nas espécies per se e nos ecossistemas que elas habitam e temos muita dificuldade de conectar a prática da conservação com aspectos cotidianos da sociedade que estão além do óbvio.

Mas uma coisa temos aprendido, trabalhamos com o que tem para hoje porque a urgência exije que troquemos o "pneu com o carro andando". Meus parabéns ao pessoal que esteve nessa reunião, que ao final resultou num produto bom que já nos mostra algumas direções para a conservação desse lindos primatas. Um dia hemos de matar o nosso ídolo, o "Capitão Planeta" e como numa libertaçõa freudiana poderemos seguir para a maturidade e deixar o joven ajudante de super-herói para traz e caminhar seguros à maturidade conservacionista.

#política #conservação #icmbio #primatas

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