Mitos e fatos da fragmentação de hábitats

Quando a ciência pode jogar contra a a própria causa? Não acredito na ciência neutra, sem posição política. Pois bem, há algum tempo (2011) um dos ecólogos mais influentes da atualidade, Stephen Hubbell e seu colega Fangliang He publicaram um ensaio sobre os problemas de estimar extinção de espécies usando a relação espécie-área (S=cA^z) onde o número de espécies "S" é uma função exponencial da área "A" multiplicada por uma constante "c" elevada uma razão constante "z", esta última de cerca de 0.25. Ou sejam perde-se espécies numa razão de 1/4 com relação à área. Suas análises demonstraram que essa relação, primeiramente porposta na teoria de Biogeografia de Ilhas em 1967 por Wilson e MacArthur terminava por sobre-estimar a redução no número de espécies em função da áreas e que no mundo real há exemplos concretos de ecossistemas que perderam menos espécies do que se esperava pela redução de sua área. As consequências da publicação deste ensaio foram catastróficas para a a geopolítica ambiental. Simplesmente, o establishment financeiro bradou que os cientistas estavam perdidos com as estimativas de extinção e que nosso impacto nos sistemas naturais não era aquela desgraça propagada aos quatro ventos. A discussão segue até os dias de hoje.

Eis que finalmente Stuart Pimm e Thomas Brook põem os pingos nos i's e comentam com maestria quais os mitos e verdades por trás da suposta falha em prever extinções das relações espécie-area e quais cuidados devemos ter quando abordamos essa questão. Num recente artigo, esses autores demonstram que:

1) Seria experimentalmente quase impossível seguir o declínio populacional de espécies monitorando-as à partir do desmatamento. No entanto, alguns poucos lugares no mundo permitiram exprimentos pontuais neste sentido, um deles no Brasil. Na Amazônia central o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDFBFF) conseguiu monitorar diversos grupos biológicos pré e pós fragmentação e os resultados são contundentes. A perda de espécies ocorreu. Assim o foi para as ilhas formadas por represas na China, Venezuela e, mais recentemente na Tailânida. Portanto, apesar de grandes meta-análises como a de Hubbell e He questionarem a utilidade da realação espécie-área, há fartas evidencias de que ela funciona relativamente bem, mas precisa obviamente de contexto.

2) O caso da Mata Atlântica parece ser um mistério. Porque com a perda de quase 90% da floresta restariam apenas 56% das espécies. Mas, quase não há registros (alguns poucos, é certo) de extinção de espécies para nossa triste Mata Atlântica. Por quê? Bom, porque mutias espécies ocupam hábitats que não imaginamos como pastos e canaviais. Há porém outro fator importante, o débito de extinções. Há muitas espécies de mortos-vivos atualemnte perambulando na Mata Atlântica e em outras florestas igualmente mal-tratadas. No longo prazo as predições do modelo especie-área tendem a se confirmar uma vez que sim, esse modelo prediz muito bem a quantidade de espécies ameaçadas de exntição, por exemplo. Ou seja, de mortos-vivos.

Voltando ao papel político da ciência. Vários esclarecimentos como este que Pimm e Brooks nos oferecem poderiam e deveriam ser dados por He e Hubbell quando comentaram sobre as falhas acerca da relação espécie-área. Várias considerações, se tivessem sido feitas antes, impediriam que a prórpia ciência da conservação oferecesse argumentos contra sua própria causa, assim, de graça.

No entanto, nem um grupo de autores nem outro consideraram algo ainda mais óbvio. Muita da controvérsia acerca de como a perda e fragmetnação de hábitats afeta as comunidades biológicas simplesmente desconsidera a matriz humana em volta delas. E aqui não estou me referindo à pastos ou canaviais como tipos de matriz, mas ao histórico e prospecto de uso da terra em volta dos hábitos naturais. A intensidade da perturbação humana e a frequência com que ela ocorre é algo que pode acrescentar outro fator definitivo à equação espécie-área. Esse fator pode ser representado como o quanto nossas atividades pontuais ou crônicas no ambiente afetam a sua resiliência e resistência, como elas alteram suas trajetórias sucessionais e que tipo de ecossistema teremos no futuro.

Referencias:

Pimm Stuart L, Brooks T (2013). Conservation: Forest Fragments, Facts, and Fallacies. Curr Biol, 23 (24),R1098-R1101.

He F, Hubbell SP (2011). Species-area relationships always overestimate extinction rates from habitat loss. Nature, 473 (7347),368-371.

Melo FPL, Arroyo-Rodríguez V, Fahrig L, Martínez-Ramos M, Tabarelli M (2013). On the hope for biodiversity-friendly tropical landscapes. Trends in ecology & evolution, 28 (8),462-468.

#conservação #extinção #política #publicações

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