Os ensinamentos das Caatingas - parte 1

Porque o sertão?

“Lá dentro no fundo do sertão, tem uma estrada das areias de ouro...”

O cantor e compositor ‘sertanês’ Elomar preludia as magias do sertão com esta frase, antes de entrar num mundo de cavaleiros, senhorios, princesas e vaqueiros. O sertão é uma nação única, própria, cujas fronteiras políticas entre estados delimitam apenas os espólios políticos e não a identidade do povo nem a paisagem catingueira.

Apesar de ocupar cerca de 10% do território brasileiro e somente no Brasil, as Caatingas são talvez a menos conhecida forma de organização de comunidades biológicas entre os cientistas brasileiros. Este ideia de ecossistema “patinho feio” está tão arraigada entre a população que mesmo a academia negligencia de maneira ativa o semiárido brasileiro¹. Mas recentemente, as coisas vêm mudando. A academia está descobrindo que as Caatingas não são apenas desconhecidas, mas um grande mundo de oportunidades para se exercer aquilo que a profissão de cientista/pesquisador nos permite: a inspiração, a provocação do ininteligível, a teorização sobre o novo.

Um pouco de entusiasmo, bases teóricas mínimas e desejo foram suficientes para instigar a mim e a outros dois colegas. Bráulio Santos é biólogo, nascido em Campina Grande, torcedor do Treze de Capina Grande (o galinho da Borborema) é um catingueiro nato, que apesar da dinâmica infância com diversas migrações pelo Brasil, guarda na memória a fazenda, os bodes, as caçadas e a paisagem do cariri paraibano. Orione Silva é agrônomo, analista ambiental da FLONA de Cabedelo, mineiro de Dores de Indaiá, pertinho da nascente do rio São Francisco, homem simples, curioso e extremamente culto cuja bagagem de vida merece várias biografias porque numa só não cabem os mais de 500 “causos” que ele conta como somente os mineiros são capazes. Eu, o mais urbanoide de todos, nascido e criado no litoral fui movido pela curiosidade que me chamava a empreender uma viagem pelo sertão com um fim muito claro: mapear oportunidades de pesquisa socioecológica nas zonas mais conservadas de Caatinga conhecidas até o momento no sul do Piauí, norte da Bahia e oeste de Pernambuco. Mais tarde, se juntaria a nós o bruxo/botânico José Alves (UNIVASF), quem seria uma peça fundamental na nossa motivação científica e cultural pelas Caatingas.

Escolhemos esses lugares porque são as regiões menos habitadas do nordeste brasileiro, com densidades demográficas semelhantes a algumas regiões da Amazônia. Nossa ideia era a de perceber se realmente a presença humana nas Caatingas é algo significativo comparando as regiões que já conhecemos, aqui próximo às capitais, com aqueles sertões mais longínquos. Fomos contando bodes e jegues pelas estradas. Falamos de geologia, biogeografia, paleontologia, etno-ciências... estávamos ávidos pelas Caatingas.

Já estávamos com a cabeça repleta de perguntas a serem respondidas em projetos de vida inteira. Vou usá-las como guias para relatar essa viagem e comentar sobre as ideias que discutimos, tratando de referenciar algumas coisas para controlar nossos devaneios acadêmicos. Esse é o primeiro post da série: “Os ensinamentos das Caatingas”:

Eis as perguntas:

  1. Como há mais de 300 anos a Caatinga é ocupada por atividades agropecuárias e altas densidades populacionais humanas e ainda consegue sustentar uma biodiversidade tão alta?

  2. Qual o poder das Caatingas de absorver os impactos causados pelas atividades humanas e ao mesmo tempo prestar o serviço ambiental capaz de ser a base econômica direta para a sobrevivência de milhões de sertanejos?

  3. A biota da Caatinga é realmente composta por espécies resistentes que se perpetuam mesmo na presença de perturbação crônica?

  4. Quais foram as transformações sofridas pela biota catingueira nos últimos 10 mil anos? Especificamente, teriam as Caatingas perdido seus campos e pastos naturais pelo avanço das espécies lenhosas?

  5. Qual o papel da criação extensiva de herbívoros domesticados na transformação das caatingas?

  6. Quantas espécies vegetais da Caatinga já estão semi-domesticadas? O Umbu, por exemplo, é uma espécie semi-domesticada?

#conservação #icmbio #caatinga #política

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