Os ensinamentos das Caatingas – parte 2: Liçoẽs de conservação

Quantos brasileiros já visitaram uma área natural protegida que realmente funcionasse? Digo mais, numa população majoritariamente urbana, quem já visitou uma área natural protegida?

O Parque Nacional Serra da Capivara é um exemplo de área natural protegida qu deixa qualquer visitante orgulhoso. Seus quase 130 mil hectares têm muita história para contar e não será nesta singela postagem que conseguirei conta-la. Vou me deter nos ensinamentos que minha visita à este maravilhoso lugar me ofereceram.

As caatingas do Piauí

A região da Serra da Capivara é uma das menos densamente povoadas de todas as caatingas. À exceção de São Raimundo Nonato, que se tornou polo de comércio e serviços de todo o sul do Piauí, em grande parte devido à presença do Parque, não muita gente habitando essa região. Por isso, pode-se testemunhar caatingas em excelente estado de conservação, verdadeiras florestas secas. No entanto, a presença de animais nas estradas denuncia que mesmo com pouca gente habitando essa região, as clássicas atividades de subsistência do sertanejo estão presentes. É um bom passatempo contar bodes, ovelhas e jumentos pelas estradas pouco movimentadas que levem de Petrolina à São Raimundo Nonato e se levada a sério a conta, veremos que seguramente há mais animais que pessoas deambulando pelas caatingas do oeste. Formações de chapadões começam a paisagem desde Afrânio-PE e se estendem sertão adentro. São diferentes caatingas, nitidamente diferenciadas pela densidade, altura e composição da vegetação, resposta enigmática desse ecossistema aos tipos de solo, drenagem e elevação do terreno e quem sabe a quantos fatores ecológicos que ainda precisamos desvendar. Com um pouco de curiosidade é possível presenciar verdadeiras miniaturas dos processo erosivos que geraram essas paisagens. Ao longo da estrada se vê com frequência zonas de erosão, resultado do mal trato da terra, que revelam como a água esculpiu essas Serras. Seixos arrendondados, e conglomerados de pequenas rochas encravados em paredões de arenito denunciam a abundância de água num longínquo passado geológico que pouco a pouco, na nossa cabeça de proto-naturalistas, ia se constituindo. Pouco a pouco íamos nos impregnando do passado, da reconstituição deste para presenciar o lugar berço dos registros mais antigos do homem nas Américas. Esse era o grande motivo do Parque, o testemunho dos nosso promeiros antepassados, dos primeiros homens e mulheres a pisarem as caatingas.

O Parque Nacional da Serra da Capivara (PNSC)

Chegamos ao parque num final de tarde. E logo vimos várias placas de sinalização pela estrada que o margeava. Na primeira entrada nos deparamos com uma guarita de segurança. Três mulheres nos recebem fardadas e bem educadas, numa pequena loja de artesanato com peças diversas fabricadas na região. Após breve conversa, passam uma mensagem de rádio para a sede em São Raimundo Nonato (a longínquos 40 km) avisando que passaríamos por lá para falar com o chefe do Parque. Não acreditei no que vi. Guarita, vigilantes mulheres, loja de artesanato, rádio comunicação... estou num parque do Brasil? Sim, estava, e ao chegar na sede provisória do ICMBio percebemos que de fato estávamos. Lá encontramos Fernando, o chefe de direito do parque, biólogo concursado no ICMBio, lotado nesta área com a função de “chefiar” uma enorme área protegida com seus... 1 funcionário. Ah? Isso, uma equipe de dois funcionários trabalhava numa sede improvisada com o objetivo de “gerir” esta área protegida. Fernando é um sujeito sério e fazia o melhor possível para exercer o seu trabalho e função, mas não resistiu à ironia de se declarar “chefe” de uma unidade que se dependesse do governo federal, estaria morrendo à míngua. Na verdade, quem administra o PNSC é a FUNDHAM – Fundação Museu do Homem Americano. O ICMBio é um órgão coadjuvante numa gestão inacreditavelmente eficiente de um enorme Parque.

Niède Guidon é o nome da responsável pelo PNSC ser o que é. Dependeu da vontade e dedicação de uma pessoa que os sertanejos tivessem alí um dos melhores parques do mundo, sem exagero. É perceptível que a estratégia de conservação implantada pela FUNDHAM foi muito inteligente. Para proteger as pinturas rupestres de inestimável valor foi criado um parque, que poderia acabar como 99% das áreas protegidas do Brasil, no desenho no papel. Seria mais um parque de papel. Mas a arqueóloga Niede foi além a criou a FUNDHAM com a certeza de que se dependesse dos governos para resguardar aquele tesoura, o teríamos perdido. A gestão de uma área natural protegida através de uma fundação foi uma jogada de mestre. Foi possível captar recursos de diferentes fontes, empregar pessoas e toar decisões rápidas e cumprir com a missão. O PNSC possui estradas com manutenção constante, drenagem, sinalização, letreiros, guias especializados, museus de sítio, lojas de artesanato e comida. Para pesquisadores há alojamentos, no coração do parque, onde abundam onças-pintadas, tudo com energia solar e total infraestrutura para a pesquisa. Há acessibilidade, cadeirantes podem visitar o PNSC sem precisar serem carregados. Lembrei dos parques da Costa Rica, verdadeiros negócios de um país que vive disso. Mas no sertão do Piauí? Sim está lá o melhor parque já visitei na vida.

Vemos que conservação não é um problema de biologia, da natureza. Conservação é um empreendimento que precisa dar certo e como todos os empreendimentos, é preciso respeitar a vocação dos lugares, um planejamento claro e amplo, com metas e missão bem definidas. É preciso envolver a população local na proteção do sítio, faze-la participar das decisões e se beneficiar da existência do Parque. Vistamos a Cerâmica Serra da Capivara, localizada num complexo com alojamento, escola e restaurante, ao lado do principal sítio de visitação, a Pedra Furada. A cerâmica é resultado de um projeto de inserção comunitária na economia ligada à visitação do PNSC. Pelos depoimento de sua atual gestora, a cerâmica agora é um negócio privado, repassado a ela pela FUNDHAM num acordo que gera dividendos tanto para sua dona, quando à fundação. Todos ganham com o Parque.

Mas claro, há sempre quem jogue contra. A FUNDHAM, o PNSC e a Niède Guidon fizeram seguramente mais pela região que todos os coronéis e prefeitos daquelas ermas plagas. Quem vai de visita a São Raimundo Nonato seguramente não apreciará uma cidade organizada e limpa e se depois de visitar o parque você decide ir ao Museu do Homem Americano, terá que enfrentar 3 km da pior estrada num raio de 200 km. A prefeitura de São Raimundo Nonato, numa espécie de pirraça, deixou que se acabasse em crateras o único acesso aos dois lugares mais importantes da cidade, o Museu e o campus da UNIVASF, outra conquista devida à presença do Parque Nacional da Serra da Capivara.

Enfim, vimos uma cidade sertaneja distante de tudo, cuja presença de uma área natural protegida foi e seguramente é ainda um dos principais motores de seu desenvolvimento e do da região. Uma verdadeira lição de conservação e uma surpresa grande por ser onde é, no castigado sertão do Piauí. Isso não significa que está tudo a salvo. Próximo ao parque há pelo menos duas enormes olarias que obviamente funcionam à base da queima da biodiversidade das caatingas e ainda, claro, o mal que mais aflige os brasileiros, políticos corruptos e míopes que governam sem nenhuma responsabilidade.

Viva as Caatingas e o Parque Nacional Serra da Capivara!

#caatinga #conservação #icmbio #política

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