A sexta extinção

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Em artigo publicado na semana passada na revista Science, um grupo de pesquisadores alerta para a iminência do sexto evento massivo de extinão na Terra. De fato, isso está acontecendo e abaixo compartilho algumas reflexões sobre as causas e efeitos dessa catástrofe.

Uma das mais fascinantes coisas em se estudar história natural é descobrir que a Terra já passou por pelo menos cinco eventos de extinção massiva, sendo o mais conhecido o que acabou com a era dos grandes répteis, os dinossauros. Mas esse foi o último dos cinco que já temos certeza que ocorreu. Antes desse, outros de maior e menor magnitude tiveram um efeito transformador na Terra. No final do período Permiano, perdemos cerca de 82% dos invertebrados marinhos. Como sabemos que há correlações positivas entre a diversidade marinha e terrestre, a estimativa é que a vida na terra-firme foi pro “béléléu” nas mesmas proporções. Ainda, aprendemos que as espécies tem um tempo médio de vida, que dependendo do grupo, não chega há um par de milhões de anos antes que sejam substituídas por outras espécies, como no caso dos mamíferos (ou seja, nós mesmos). Os eventos massivos de extinção na Terra ocorreram numa velocidade que geologicamente pode ser considerada rápida. Alguns milhões de anos para perder um monte de espécies e outros milhões mais para se recuperar. As taxas de extinção desses eventos variaram, e o mais rápido evento de todos, esse mesmo do final do Permiano perdia espécies numa taxa de mil vezes mais lenta que a taxa estimada para a atualidade. Portanto, estamos diante do sexto e mais intenso evento de extinção massiva que o Planeta já presenciou. O que será que está causando isso?

Um grupo de macacos com cérebro mais avantajado começa a explorar o ambiente no leste da África de tal forma que rapidamente descobre que pode manipula-lo. Aprende muito rápido e começa a gerar hipóteses sobre o futuro. Não foi o fogo, nem ferramentas rudimentares de pedra que nos deixaram mais espertos, foi nossa capacidade de prever com base nas experiências, no conhecimento acumulado, ou seja, nossa capacidade de “hipotetizar” futuro que nos empurrou a ser Homo sapiens. Como espécie, só nos restava confiar nessa habilidade extraordinária e começar a fazer numa escala cada vez maior, o que sempre fizemos, modificar o meio em nosso entorno para nele sobreviver. Acontece que por cerca de 99% de nossa existência vivíamos em baixa ou baixíssima densidade. Qualquer coisa que desse errado (e muita coisa deu errado) podíamos nos mudar, simplesmente. A Terra esteve “vazia” pela maior parte do tempo de nossa existência. Isso não impediu que ao nosso passo pelos continentes fossemos eliminando os grandes animais que eram ou competidores diretos nossos (grandes tigres, ursos, leões, etc...) ou nossas presas preferenciais. De todos os mamíferos e aves que foram extintos nos últimos 10 mil anos, muitos foram obra nossa e a maioria de grande porte. Não somente eliminamos espécies do planeta como alteramos ecossistemas de tal forma que na atualidade são irreconhecíveis. Parece improvável que a civilização humana começou a dar seus primeiros passos na crescente fértil, um lugar na atualidade, inóspito e seco, mas provavelmente um supervale florestado e fértil há 10 mil anos. Onde estão os ursos-da-caverna, rinocerontes-lanudos, leões, e mamutes que habitavam a Europa e foram pintados com primazia pelos seus primeiros habitantes humanos nas paredes da Caverna de Chauvet, na França? Não importa quantos éramos e como vivíamos, estivemos sempre destinados a transformar o mundo em nossa volta e assim o fizemos, antes dos gregos, romanos, feudalismo, capitalismo, socialismo...

Alguns lugares da terra já estão colapsando. Regiões superpovoadas e ricas do planeta não produzem em absoluto o que demandam para que sua gente sobreviva, precisam retirar recursos do outro lugar. Não temos simplesmente para onde ir se alguma merda acontecer. Tudo é tão internacionalmente ligado que o destino da humanidade está entrelaçado a tudo e todos. Por enquanto a China ainda compra comida de outros países, mas se algo de muito errado acontecer, podem ficar certos que eles vêm buscar à força, bem como o resto do mundo militarmente armado, inclusive o Brasil. Isso porque já nos apropriamos de cerca de metade da produtividade primária líquida do planeta, ou seja, tudo que vira biomassa através da fotossíntese, é para nosso único e exclusivo usufruto. O que sobra vai alimentar a base da cadeia trófica onde estão as demais 1,9873829299 x 106 espécies conhecidas.

Assim, estamos rumo a mais rápida, intensa e potencialmente transformadora extinção massiva que a terra já experimentou. Uma pena para nós, porque a mesma história geológica mostra que a vida se recupera e se diversifica após cada evento de extinção massiva, só que não poderemos registrar essa história porque é provável que não estejamos aqui.

Sugestões de leitura, digite no google: “sixth mass extinction”

#conservação #extinção #política #publicações

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