Qual choque?

Uma postagem estranha me chega, clama por um “choque ambiental” e não deixa muito claro o que deseja o autor com seus desejos de eletrocussão. Algumas coisas mencionadas são verdade, a saber: a agenda ambiental é a última prioridade de praticamente qualquer governo em qualquer esfera do Brasil. Outro acerto do texto é tratar de ligar as questões ambientais à economia. Certo por linhas tortas, a economia é irmã da ecologia não só na raiz etimológica, mas em grande parte nos seus fundamentos teóricos mais básicos. Em seu aspecto mais elaborado, a economia relega as pressões ambientais à condição de “externalidades”, um eufemismo delicado para “foda-se”. Isso só é possível porque o custo ambiental não está embutido em praticamente nada do que consumimos... Quanto custa ambientalmente seu “telefone esperto” produzido na China, com matéria prima comprada de fontes sem certificação ambiental e mão-de-obra análoga à escrava que deixa no seu percurso de navio até o porto de Suape mais carbono na atmosfera que você seria capaz de recuperar plantando árvores? Não há choque possível que salve do infarto uma sociedade viciada em consumo. O melhor a se fazer é justamente o que o texto critica. A fissão do IBAMA em ICMBio e Serviço Florestal Brasileiro separou funções e livrou de influencias nefastas a gestão das áreas protegidas (ICMBio) do licenciamento ambiental (IBAMA). O tal “choque ambiental” pelo qual anseia o autor-blogueiro é em suma, o liberalismo ambiental. Menospreza os argumentos técnicos, leia-se, acadêmicos (algo que a economia não ousa fazer), sugere que a ineficiência governamental dos órgãos ambientais se resolveria com a incineração/eletrocussão dos mesmos e zomba da área ambiental que é lembrada como inspetor de escola, aquele que só atrapalha. Mas deixa o melhor para o final: um economista no Ministério do Meio Ambiente. Dessa forma, o inadvertido blogueiro deseja “chocar” mas por excesso de ignorância.


Pobre blogueiro, que desconhece os documentos mais importantes para a (geo)política ambiental na atualidade. Talvez desconheça que a grande síntese conduzida pela ONU na publicação Millenium Ecosystem Assessment, documento chave que desde 2005 foi compilado pelos melhores acadêmicos do mundo na área ambiental incluindo uma boa dose de economistas. Talvez desconheça o programa TEEB - The Economics of the Environment and Biodiversity no qual o Brasil teve liderança desde a concepção até a aplicação do modelo proposto basicamente por economistas. Ignora ainda, que apesar de não distribuir choques, presidimos como nação a Convenção para a Diversidade Biológica – CDB. Domesticamente foi a academia brasileira a única voz sensata a criticar a alteração do código florestal imposta pela bancada ruralista demostrando que a força dos argumentos técnicos constrangem a política. No entanto, sim, estamos diante de sérias ameaças quanto à nossa liderança ambiental global, por sinal conquistada durante os últimos 10 anos. A solução proposta para tudo isso, justamente pelos setores que mais entendem do assunto, é o contrário do que propõe o blogueiro... Fortalecer os órgãos ambientais para que reflitam o interesse coletivo da população e o bem-estar das gerações futuras. Aproveitar as oportunidades de desenvolvimento associadas ao meio ambiente tais como as Unidades de Conservação, que por certo precisam de melhor gestão, e nisso sou liberal, precisamos da iniciativa privada para ajudar a sociedade a gerir mais de 40 milhões de hectares de maravilhas naturais protegidas por lei. Enfim, precisamos de um bom rearranjo na política ambiental, mas nada parecido com um choque de alta-voltagem que está mais para executar um condenado na cadeira elétrica. No entanto, precisamos entender que um modelo de desenvolvimento tropical e biodiverso é nosso inequívoco destino, para nosso bem e das gerações futuras.

#brasil #conservação #política #icmbio #publicações

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