A ecologia humana e a dos mosquitos

A enfermidade de transmissão vetorial mais letal e estudada do mundo é a malária que afeta cerca de 300 milhões de pessoas e mata cerca de 1 milhão, principalmente nos países da África subsaariana (90% das mortes), sendo crianças menores que 5 anos as principais vítimas (78% das mortes) [1,2]. Desde que a malária começou a ser tratada como problema de saúde pública, na década de 1950, várias práticas se demonstraram ineficazes. O mosquito Anopheles sp. hoje é resistente ao DDT (pesticida já proibido por seu alto potencial cancerígeno), malathion e daltametrina [3]. O próprio protozoário causador da malária o Plasmodium sp. É também hoje resistente à cloriquina e à pirimetamina. Surtos de malária famosos aconteceram curiosamente na construção dos dois canais que ligam oceanos no mundo, o canal de Suez e o do Panamá. A construção desses canais empregou milhões de pessoas no trabalho braçal e seus alojamentos em condições subhumanas forneciam as condições necessárias para a transmissão descontrolada da malária. Apesar de todo esse histórico de lições, hoje os efeitos da malária se encontram equiparados aos das doenças do seleto grupo de “doenças tropicais negligenciadas”, eufemismo utilizado pela OMS para “doenças de pobre” [4] onde estão também a dengue e a chikungunya. Com esse padrão detectado, reduzir as estatísticas de morte por malária não depende mais de combate ao mosquito, mas de oferecer condições mínimas de saneamento e atenção básica de saúde para crianças dos países da África subsaariana.

Foto: https://pt.wikipedia.org/wiki/Aedes_aegypti

Algo que todas essas enfermidades negligenciadas possuem em comum é que possuem determinantes ecológicos em pelo menos três níveis, o parasita (causador da doença), o vetor (um mosquito ou outro animal) e o hospedeiro (seres humanos). A epidemiologia, é uma espécie de ecologia das doenças adicionada de medicina e políticas públicas. Enquanto não se tem vacina para muitas dessas doenças, não resta outra alternativa a não ser entender e agir sobre a ecologia dos três elos da cadeia de transmissão. No entanto a política de ação contra as epidemias transmitidas pelo Aedes aegypti é uma uma repetição circular de erros, como no caso da malária. Inseticidas usados indiscriminadamente por décadas vão terminar por criar insetos resistentes. Os larvicidas já estão sendo atualizados porque a substância antiga já não é eficiente. Ou seja, o foco é somente num dos aspectos da ecologia do mosquito, seu ciclo reprodutivo. No entanto há ,muitos outros fatores que poderiam reduzir a contaminação pelo A. aegypti. Um recente estudo publicado em agosto de 2015 numa das mais importantes revistas de ecologia aplicada do mundo demonstra pode-se calcular a “capacidade vetorial” das paisagens urbanas [5]. Em resumo, segundo o estudo, as ilhas de calor urbano (UHI em inglês) e as condições de umidade associadas são os pontos chave para entender o potencial vetorial de cada vizinhança. A mistura explosiva é composta de zonas (mal) urbanizadas, quentes, pouco arborizadas e úmidas. Qualquer medida de urbanização que amenize e diversifique o clima nas cidades tropicais já reduz a capacidade vetorial do A. aegypti cujo comportamento é extremamente doméstico (apesar de poder voar 400 m), onde o clima é mais constante. O artigo sugere que a urbanização adequada, com heterogeneidade de condições climáticas, favorece o controle desses vetores e das doenças que eles transmitem.

Foto: Diego Nigro/JC Imagens

Quando se fala em urbanização, estamos falando em ecologia humana. A maneira como estamos distribuídos na paisagem urbana e como tratamos nosso hábitat. Recentemente um estudo sugeriu que para cada 1% de floresta derrubada, há um acréscimo de 23% nos casos de malária [6]. Do contrário, a arborização urbana reduz as doenças cardíacas e depressão [7]. Mesmo ações enraizadas na nossa cultura como limpar a casa com desinfetante regularmente pode ser a causa da maior prevalência de doenças alérgicas nas populações urbanas [8]. Ao desinfetar a casa constantemente estamos matando bactérias nocivas e benéficas e dando uma vantagem desleal aos seus inimigos naturais de milhões de anos, os fungos, principais causadores de alergias em humanos. Ou seja, nosso hábitat não precisa ser esterilizado com desinfetantes e a palavra “limpo” pode significar muitas vezes “morto” e precisamos mesmo é de um hábitat equilibrado, mas vivo. Nossas cidades não precisam de “fumacê” nem de larvicidas como se fossem desinfetantes de banheiro, usados diariamente. A tarefa urgente é abastecer as pessoas com água constante, de forma que elas não precisem armazená-la, e coletar o esgoto que é produzido. Nosso hábitat vai continuar sendo o do mosquito, isso é inevitável, mas se conseguimos mantê-lo em números baixos, não sofreremos com epidemias da magnitude que estamos enfrentando agora.


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