Os jardins da Amazônia


Um estudo recente publicado na revista Science demonstra como a presença humana pré-colombiana na Amazônia está relacionada com a riqueza e abundância de espécies domesticadas de árvores. O estudo feito por dezenas de autores de várias universidade do mundo se utiliza de uma mega base de dados com milhares de registros de ocorrência e abundância de árvores amazônicas por toda a região e os correlaciona com a localização de sítios arqueológicos espalhados pela bacia amazônica. Este mesmo grupo já tinha demonstrado em 2013 (usando a mesma base de dados) que apenas 227 espécies de árvores (das 4962 espécies válidas e cerca de 16.000 estimadas de existirem na Amazônia) respondem por mais de 50% de todos os indivíduos. Isso mesmo, apenas 227 espécies de árvores respondem por cerca de 50% de todas as árvores "em pé" na Amazônia. Todo o resto das milhares de espécies são raras ou raríssimas, ocorrem em pequena abundância e somente em certos lugares da Amazônia. É um mundo de árvores comuns (227 apenas)

Em resumo, o grupo identificou 85 espécies de árvores em diferentes estágios de domesticação (incipiente, semi e totalmente domesticada), sendo que 20 dessas espécies (cinco vezes mais que o esperado pelo acaso) pertencem àquelas 227 espécies dominantes. Entre elas estão a Castanha-do-Pará, o Açaí, o Cacau um parente do Sapoti e uma espécies de Ingá. O estudo demonstra elegantemente como a abundância (número de árvores) e riqueza (número de espécies) dessas espécies domesticadas-dominantes diminui com a distância para sítios arqueológicos. O mesmo não acontece para espécies dominantes mas que não são domesticadas, sugerindo uma causalidade na relação encontrada com as primeiras. Além disso, aquelas espécies domesticadas cujas sementes são dispersas por primatas são mais abundantes longe dos sítios arqueológicos, sugerindo pressão de caça nas cercanias desses assentamentos humanos. Como toda boa ciência o estudo é cauteloso e deixa claro que essas evidências somadas à relação que a riqueza e abundância têm com variáveis ambientais como a fertilidade do solo, pluviosidade, ph, etc, só explicam 30% do fenômeno. Ou seja, há outros 70% de variação nos dados que não são capturados pelos modelo usados pelo grupo. Ainda, os autores fornecem evidência de centros de domesticação na Amazônia e prováveis rotas de migração de cultivares que seguiram as mesmas rotas de expansão de grupos linguísticos Aruak e Tupi pelo sudoeste e leste da Amazônia. Essa região, sugerem os autores, devia ser a parte da Amazônia mais rica e abundante em espécies domesticadas. Infelizmente é justamente aí que se encontra o famigerado 'arco do desmatamento', nossa fronteira agrícola, a frente de expansão do agronegócio na Amazônia.

O estudo, portanto, oferece fortes evidências de que séculos de domesticação de espécies nativas, seu uso, e cultivo na maioria da vezes in situ (no mesmo local onde ocorrem as espécies) foi criando uma flora dominada por espécie úteis aos seres humanos que habitavam essas terras. Além das implicações ecológicas, a maior lição desse estudo é a confirmação da noção de que não há natureza intocada pelo homem. Reconhecer esse fato é aceitar definitivamente que nossa presença na Terra modifica os sistemas naturais e que é nossa responsabilidade, portanto, maneja-los, conserva-los e cuidar para que sejam funcionais para as gerações futuras e para os milhões de espécies que compartilham os ecossistemas conosco.

#amazonia #extinção #conservação #interdisciplinar #flora

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