Desobediência civil na Ciência


Cientistas são trabalhadores cujo único capital é a força de trabalho dos cérebros. Portanto, em momentos de crise econômica e política como a que vivemos no Brasil de 2019, fazermos parte do elo mais fraco da sociedade. A atividade científica no Brasil está sendo atacada politicamente pelo desprestígio e perseguições do governo federal nas instituições de pesquisa. Demissão de diretores, desrespeito às consultas universitárias, negação de dados científico fazem parte dessa crise política. O ataque se consuma com o corte de recursos financeiros do sistema de produção de conhecimento no Brasil. A ordem é estrangular a geração de conhecimento através do corte de bolsas e recursos de custeio das universidades e centros de pesquisa.

Infelizmente a comunidade acadêmica reage passivamente, lamenta-se e espera dias melhores. Porém, existe outra opção mais digna, desobedecer. A desobediência civil é um método de resistência antigo, usado por grupos perseguidos ao redor do mundo. Desobedecer uma regra ou política que não achamos justo é o princípio dessa tática. Ocupar ruas e se associar quando o direito de reunião estava cassado era um ato de desobediência durante a ditadura militar. As regras que foram impostas para a comunidade acadêmica no Brasil devem ser desobedecidas, mas como?

1) Mudar as métricas de produtividade - Essa é uma queixa antiga da sociedade, que percebe que dialogamos pouco com o mundo real. Para resolver esse problema, precisamos escrever mais, comunicar mais por todos os meios, revistas, jornais, blogs, podcasts, redes sociais. Os métodos de avaliação da produtividade de pesquisadores precisam ser modificados para valorizar essas intervenções. É relativamente fácil mudar as regras, afinal, fomos nós mesmos, pesquisadores, que criamos as métricas. Precisamos valorizar mais o engajamento público dos pesquisadores que produzem peças de ampla circulação, por distintos e modernos meios. Portanto, desobedecer ao sistema vigente de produtividade, forçando para que se acomode aos novos tempos de resistência, é vital. Isso não significa deixar de produzir conhecimento de alto padrão e circulação internacional, mas estimular novas formas de produção que permitam o diálogo com a sociedade. As regras de avaliação de produtividade precisam mudar.

2) Suspender vestibulares e seleções de pós-graduação – Não é razoável continuar recebendo novos alunos sem recursos pra garantir sua formação. Não é factível captar novos alunos de pós-graduação sem bolsas que permitem sua dedicação à pesquisa. No mínimo, deveríamos condicionar a oferta de vagas ao recurso disponível. As universidades têm autonomia para decidir o número de vagas oferecidas.

3) Esvaziar o CNPq e a Capes – Não devemos participar de nenhuma comissão julgadora, nem dar pareceres individualmente à Capes ou CNPq. Insto aos colegas indignados que são parte de algum CA do CNPq ou qualquer outra comissão da Capes, que renunciem aos seus cargos. A paralisação da produção de ciência é iminente por estrangulamento, mas podemos inverter o jogo e tomar o controle desse apagão. Ao boicotar a gestão científica desse governo, vamos expô-lo à sua ineficiência e ignorância. Sem os melhores cérebros, que de fato são os que gerenciam o sistema, CNPq e Capes precisarão se reinventar no deserto de ideias de Brasília. Essa ação pode, paradoxalmente, ser a melhor opção para preservar essas instituições. Mantê-las funcionando “com a ajuda de aparelhos” é vergonhoso.

A comunidade acadêmica é quem domina politicamente os órgãos de fomento. O que é o CNPq sem os CA’s? O que será da Capes sem as pós-graduações? Não podemos normalizar o desmonte da ciência brasileira, adaptando-nos à condição de promotores de “balbúrdia” ou “servidores de ONGs”. Estamos vivendo realmente um período especial na atividade científica brasileira e em alguns anos, quando esse projeto for derrotado (porque será), a desobediência civil terá sido nossa melhor atitude de preservação. Para isso é necessária uma ação articulada da comunidade acadêmica para reagir para além da adaptação aos “tempos de escassez”. É preciso negar ativa e contundentemente o ataque perpetrado.


Featured Posts
Recent Posts
Search By Tags
Nenhum tag.
Follow Us
  • Facebook Classic
  • Twitter Classic
  • Google Classic
Encontre-nos

Laboratório de Ecologia Aplicada

Departamento do Botânica

Universidade Federal de Pernambuco

Rua Prof. Moraes Rego S/N, 50670-901

Recife-PE, Brasil

 

Grupo no Facebook

 

 

Telefone : x55 81 2126-8944

Fax : x55 81 2126-8348
Email : felipe.plmelo@ufpe.br

  • Facebook App Icon
Curta e compartilhe
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now